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terça-feira, maio 17, 2011

PÉS (Eles precisam de carinho)



Seus pés enfrentam quilômetros em asfalto quente, terra batida, lama, esteira. É hora de dar uma mãozinha a eles

Por Yara Achôa | Ilustrações Fido Nesti
Duas engenhocas compostas cada uma por 26 ossos, 107 ligamentos, 33 articulações e vários músculos, os pés são motivo de orgulho e ao mesmo tempo vergonha para muitos corredores. Orgulho porque são eles que carregam bravamente o piano na hora da corrida. Vergonha porque, quando não são bem cuidados, ficam com aspecto pior do que um tênis detonado.
Chute o balde
Dicas para dar o merecido descanso aos seus pés
Depois de um treino longo ou uma prova, seus pés precisam de mimos. “Tomar um bom banho, aplicar um hidratante e fazer uma leve massagem, além de colocá-los para cima, melhora a circulação e traz conforto”, diz Ana Lúcia Recio. O gelo também será um bom companheiro nessa hora. “Uma bolsa térmica gelada ou uma trouxinha com pedras de gelo, por 15 a 20 minutos, aliviam o cansaço”, afirma o ortopedista Rogério Teixeira da Silva.
E, além do constrangimento na hora de calçar sandálias, pés maltratados podem comprometer seu futuro nas ruas e pistas. “Os problemas geralmente ocorrem em função do impacto, de longas distâncias percorridas, da utilização de calçados inadequados para aquele tipo de pé, de alterações ortopédicas da própria pessoa e do uso prolongado do tênis, o que pode levar a micoses, bolhas, odores, entre outras coisas”, diz a dermatologista (e corredora) Ana Lúcia Recio, de São Paulo, membro da Academia Americana de Dermatologia.
Do ponto de vista ortopédico, os pés podem ter problemas anatômicos ou posturais e gerar uma série de chateações para o corredor. “Por isso, é importante fazer avaliações estáticas, como a impressão do arco plantar, e dinâmicas, com o paciente sendo filmado correndo em uma esteira”, sugere Rogério Teixeira da Silva, ortopedista do Núcleo de Estudos em Esportes e Ortopedia (NEO), de São Paulo. Mais do que apontar os “defeitos”, esses testes dão os caminhos para que a atividade seja praticada com segurança, revelando o tênis certo a ser usado e apontando a necessidade de fisioterapia para alguns desvios de postura, entre outras coisas. Conheça os principais quadros que obrigam o corredor a levar seus pés ao médico e saiba o que fazer para prevenir ou minimizar os estragos.
Ossos do ofício
Dores, inflamações e deformações podem tirá-lo das ruas por um tempo. Aqui, os problemas mais comuns
FASCITE PLANTAR
É a inflamação na estrutura de sustentação da sola do pé, a fáscia. O principal sintoma é dor na região do arco plantar, notada principalmente ao se pisar no chão ao levantar da cama pela manhã. Em alguns casos, dura o dia todo. O problema pode se tornar crônico e, quando não tratado, pode acarretar fraturas por estresse.
O que fazer: investir em alongamento, tracionando diariamente o pé. Caso a fascite esteja instalada, talvez seja necessário modificar o treinamento e até suspendê-lo por alguns dias, além de recorrer a medicamentos indicados pelo ortopedista.
INFLAMAÇÃO DO TENDÃO DE AQUILES
É caracterizada pela dor na parte de trás do tornozelo, que começa devagar e se intensifica com o passar do tempo. Cronicamente, leva ao enfraquecimento do tendão, tornando-o suscetível a uma série de outras lesões.
O que fazer: a melhor maneira de prevenir é realizar um bom alongamento de pernas e pés. Uma vez ocorrendo a inflamação, você provavelmente terá de interromper seus treinos por um período de sete a 15 dias (em quadros mais leves) ou fazer sessões de fisioterapia por até 12 semanas (em casos mais graves).
METATARSALGIA
É a dor na parte de cima do pé, onde temos cinco “ossinhos” chamados metatarsos. Pode estar relacionada a ossos, articulações, músculos, ligamentos ou tendões na região. O problema é mais comum em pessoas que costumam usar sapatos fechados e mulheres que andam de salto alto.
O que fazer: dar descanso aos pés. Ande descalço ou com calçados mais confortáveis e use palmilhas.
HÁLUX VALGO (JOANETE)
Uma saliência óssea do dedão ou dedinho que tem, entre suas causas, o encurtamento do músculo que faz estender os dedos e o excesso de movimentação ou o desvio do osso do meio do pé.
O que fazer: usar calçados confortáveis e certos para seu tipo de pé. E alongamento diário: apoie o calcanhar no chão, contraia os dedos como se fosse pegar um objeto e levante o pé, formando um ângulo reto.
Sujeiras, fungos, cracas...
Problemas ligados à pele também incomodam muito. Confira abaixo alguns deles
UNHA ENCRAVADA
Pode surgir por predisposição genética, uso de calçados apertados e inadequados ao pé e pelo corte incorreto das unhas.
O que fazer: você deve procurar um podólogo para corrigir o problema e, em casos mais graves, terá que dar uma pausa no esporte para a realização de uma pequena cirurgia para a retirada do excesso de unha — o que significa que você ficará pelo menos um mês sem correr.
MICOSES
O suor gera fissuras entre os dedos e os fungos podem se instalar ali. Outra possibilidade é o desenvolvimento direto de micoses, devido ao ambiente quente e úmido dos tênis. Mas nem tudo que descama é micose. Você também pode ter intertrigo (ou frieira), uma descamação com vermelhidão entre os dedos. A diferença é que micose coça e o intertrigo não.
O que fazer: higienizar bem os pés e os tênis (veja quadro abaixo).
CHULÉ
Mesmo aquele indivíduo com hábitos corretos de higiene pode ter odor nos pés, já que se trata de uma característica individual. Mas é claro que o problema também ocorre ou pode ser piorado por conta de uma higiene inadequada.
O que fazer: lavar os pés duas vezes ao dia (inclusive entre os dedos) com sabonete bactericida e enxugar muito bem. O ritual pode ser finalizado com talco antiperspirante.
BOLHAS
Surgem como os hematomas, devido ao atrito constante do pé com a meia ou o tênis.
O que fazer: Antes de correr longas distâncias, aplicar uma pequena quantidade de vaselina nas áreas de maior atrito. Em distâncias menores, você pode usar duas meias fininhas, para que o atrito fique entre elas e não entre a meia e o pé. Se as bolhas já surgiram, nada de estourar. Isso irá provocar mais dor e torná-lo suscetível a infecções. Proteja a área da bolha com um curativo apropriado. No consultório, o médico poderá dar um trato melhor.
UNHA PRETA
Os microimpactos constantes na corrida podem levam a traumas nas unhas, promovendo seu descolamento e a formação de hematomas pelo microssangramento.
O que fazer: você pode usar um tênis um número maior, principalmente se costuma percorrer longas distâncias, já que seu pé vai inchando. Se você estiver com dor, o médico provavelmente fará um pequeno furo para drenar o sangue acumulado na unha (só não invente de fazer isso em casa). No mais, só lhe resta esperar que uma nova unha nasça e vá empurrando o hematoma.
Qual a cara do seu pé?
Dependendo de como ele é e da maneira como você pisa, também podem aparecer problemas
PÉ PLANO (CHATO)
Pé com pouca ou nenhuma curvatura na sola. Por ser muito flexível, na corrida ele deixa o indivíduo predisposto a tendinites nos tornozelos ou lesões nos joelhos. Tende a uma pisada pronada (“para dentro”).
O que fazer: aprender a posicionar corretamente pernas e joelhos, com exercícios como deslocamentos laterais e treinos pliométricos (saltos), cujos objetivos são fortalecer e dar agilidade aos músculos das pernas.
PÉ CAVO
Tem a curvatura do arco plantar muito acentuada. E, por ser excessivamente rígido, sobrecarrega a tíbia, deixando o corredor mais vulnerável a fraturas por estresse. Tende a uma pisada neutra ou supinada.
O que fazer: fortalecer e alongar as panturrilhas. Em alguns casos, também pode ser necessário o uso de palmilhas de apoio.
PISADA SUPINADA
Voltada para fora, faz com que o impacto do peso do corpo fique mal distribuído e concentrado em poucos pontos do pé, podendo acarretar lesões nos ossos de apoio e predispor o corredor à inflamação dos tecidos de revestimento da planta do pé (fascite plantar).
O que fazer: usar palmilhas e tênis apropriados para melhorar o equilíbrio e a distribuição da tensão. E fortalecer os músculos dos pés.
PISADA PRONADA
Voltada para dentro, sobrecarrega a parte interna da perna, comprometendo tornozelos, joelhos e até a coluna. Também diminui a estabilidade na pisada, o que amplia o risco de tendinites, artrites e fraturas por estresse.
O que fazer: é importante trabalhar a musculatura com exercícios de fortalecimento específico.