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segunda-feira, novembro 07, 2016

De onde vem nossa curiosidade de conhecer?



Costuma-se pensar que a aprendizagem e o conhecimento se adquirem apenas e simplesmente pela inteligência e concentração. Alguém pode dizer: “Fulano ficou horas estudando, deve estar sabendo tudo”, como se ao ler um texto a pessoa necessariamente conseguisse apreender e assimilar o conteúdo ali presente. E, além de tudo, como se isso só dependesse da capacidade intelectual.
Muitos equívocos são cometidos, principalmente, quando se fazem diagnósticos de aprendizagem em crianças e adolescentes, pelo fato de haver uma redução desse processo a uma visão organicista. É preciso entender que o ser humano é um ser cultural e possuidor de um inconsciente. A nossa vida mental é determinada por processos psíquicos inconscientes complexos relacionados às pulsões de vida e de morte, presentes em todos nós. As pulsões de vida estão associadas à sexualidade, antes de tudo como energia que move o ser humano.
Freud explorou muito bem essa questão e mostrou como elementos primitivos da sexualidade interferem e determinam, então, certas necessidades. É bom esclarecer, bem sinteticamente, que quando se fala de sexualidade não se trata apenas dos órgãos sexuais e da atividade genital. Fala-se aqui do desenvolvimento dessa energia de vida, que tem seu início desde o nascimento, associada a diversas partes do corpo, começando pela boca (oralidade), ânus (anal) e os órgãos genitais. Todo o corpo é sexualizado, revestido por essa energia e – o mais importante – essa condição possui uma representação na mente.
A pulsão oral, por exemplo, deriva desejos de devorar e incorporar, ao passo que a pulsão anal, de segurar, possuir, manipular, controlar a mãe, que é o primeiro objeto de relação da criança e que depois se estenderá para tudo o mais, como as outras relações, o conhecimento, o trabalho etc.

Freud disse que todo ato de conhecer envolve algum domínio sobre o objeto e isso está ligado à sexualidade e ao desejo de saber sobre nossa origem. “De onde viemos?” e “Para onde vamos?” seriam as perguntas essenciais que carregamos como mistérios que falam do sentido da vida e por isso mesmo não possuem respostas plenas, mantendo assim, indefinidamente, uma busca contínua e sem fim.
Melanie Klein, também psicanalista, observou crianças com inibições intelectuais e desenvolveu a ideia de que isso estaria relacionado a uma dificuldade de tolerar esses impulsos infantis de devorar, incorporar e penetrar, que em geral provocam muitas angústias e medos pela violência que possuem. Isso prejudica a possibilidade de transformar esses impulsos em curiosidade e desejo de saber. Muitas vezes, então, perceber numa criança ou em um jovem uma ausência de interesse e curiosidade para com os estudos pode indicar a presença de conflitos psíquicos que não puderam ser absorvidos, transformados e superados. É preciso ajudá-los, então, a tomar consciência sobre esses processos internos mentais para que eles se libertem da inibição intelectual e possam, assim, brincar, aprender e criar. Klein ainda acrescenta que essas atividades trazem à pessoa a possibilidade de reparar e de dar aos seus sentimentos caminhos mais criativos.
Bion, outro psicanalista, dizia que para sermos capazes de aprender precisamos manter o problema na mente, suportando ficar com o conflito para que esse seja conhecido. Isso porque nossa tendência é expulsar aquilo que provoca angústia. Ou negamos ou projetamos em algo ou alguém, perdendo a oportunidade de aprendermos com a experiência.
Nossa curiosidade de conhecer tem suas origens na nossa vida inicial e nas nossas primeiras relações. O bebê aprende com a mãe como se faz para tolerar frustrações, desenvolvendo, assim, o pensamento, a memória, a simbolização. Se a mãe acolhe as angústias e necessidades de seu filho, ela o ajuda a construir os recursos para o seu desenvolvimento.

Winnicott, psicanalista, também fala disso, quando enfatiza que a mãe proporciona ao bebê a ilusão de que ele é o criador das coisas ao seu redor, e a confiança inicial sobre isso é fundamental para que ele aprenda a suportar as frustrações mais tarde e encontre alternativas criativas para seus problemas.
Um bom professor, então, deve considerar que, assim como ele, seu aluno possui um inconsciente com conflitos que precisam ser transformados em curiosidade e desejo de saber. Cabe a ele, consciente disso, despertar seu desejo de aprender.